Quando as vacinas de mRNA contra a Covid-19 foram aprovadas em tempo recorde, em 2020, muita gente ficou desconfiada. "Foram feitas muito rápido." "Mexem com o DNA." "É tecnologia nova, não sabemos os efeitos." Essas preocupações eram compreensíveis — mas baseadas em mal-entendidos sobre como a tecnologia funciona.
mRNA (RNA mensageiro) é uma molécula que carrega instruções genéticas do DNA para os ribossomos — as "fábricas" de proteínas da célula. É uma molécula natural, presente em todas as células vivas.
Como funciona uma vacina tradicional
Para entender as vacinas de mRNA, ajuda primeiro entender como funcionam as vacinas tradicionais. A maioria delas introduz no organismo uma versão enfraquecida ou inativada do vírus (ou apenas partes dele). O sistema imunológico reconhece o invasor, monta uma resposta e "memoriza" como combatê-lo. Se o vírus real aparecer depois, o sistema imunológico já sabe o que fazer.
A abordagem do mRNA
As vacinas de mRNA funcionam de forma diferente — e mais elegante. Em vez de introduzir o vírus (ou parte dele), elas introduzem instruções para que as próprias células do organismo produzam uma proteína do vírus.
No caso das vacinas contra a Covid-19, as instruções são para produzir a proteína spike — a "espinha" na superfície do coronavírus. O sistema imunológico reconhece essa proteína como estranha, monta uma resposta e memoriza. Quando o vírus real aparece, o sistema imunológico já conhece a proteína spike e sabe atacá-la.
"É como se você treinasse o sistema imunológico com uma foto do inimigo, em vez de apresentar o inimigo de verdade. Mais seguro, mais preciso, mais rápido de produzir."
— Dra. Patrícia Souza, Interesse Geral
Por que não mexe com o DNA
Uma das preocupações mais comuns é que as vacinas de mRNA possam alterar o DNA humano. Isso não é possível por razões biológicas fundamentais. O mRNA é produzido a partir do DNA, mas o processo inverso — mRNA se transformando em DNA — não acontece naturalmente em células humanas normais. Além disso, o mRNA é uma molécula frágil que se degrada rapidamente após cumprir sua função.
Por que foram desenvolvidas tão rápido
A velocidade de desenvolvimento não significou falta de rigor. Significou que vários fatores se alinharam: décadas de pesquisa prévia em tecnologia de mRNA, financiamento sem precedentes, processos regulatórios acelerados (mas não eliminados) e o fato de que os ensaios clínicos foram realizados em paralelo, não em sequência.
As vacinas de mRNA representam uma plataforma tecnológica com potencial muito além da Covid-19. Pesquisadores já estão desenvolvendo vacinas de mRNA contra HIV, malária, tuberculose e alguns tipos de câncer.